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restituir o minúsculo. crítica de 'voar nas alturas, adentrar as produndezas', de aurora caballero.

  • Foto do escritor: Xérem Indisciplinar
    Xérem Indisciplinar
  • 22 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 28 de dez. de 2025

 crítica | artes visuais


Formiga, de Aurora Caballero.

Voar nas alturas, adentrar nas profundezas, exposição individual de Aurora Caballero, configura o último ato do ano na Galeria de Arte Archidy Picado, em João Pessoa. Com curadoria de Allan Yzumizawa, a mostra reúne trabalhos que transitam entre o rigor da observação e o delírio da criação.

Composta por uma série de obras realizadas entre 2024 e 2025, que reúnem pinturas de insetos sobre algodão cru, inspiradas na técnica gyotaku, em sua maioria formigas e seus habitats, e esculturas têxteis suspensas do teto, a exposição se organiza em um campo duplo. Por um lado, tem-se um registro figurativo, quase científico, de caráter ilustrativo; por outro, uma lógica mais conceitual que não representa, mas opera por meio de forças, ritmos, matérias e relações. Confrontadas, essas imagens nos convidam a pensar a natureza não como uma entidade separada, mas como uma relação em constante composição.

Caballero, pessoense, ex-aluna do curso de biologia, traz como herança desse campo um olhar delicado, quase científico, para os insetos. O rigor da observação, contudo, se desdobra em fabulação. O dado empírico, laboratorial, se retorce e alcança um lugar onde a ciência não é bem recebida, o delírio. É assim que decorre um percurso invisível entre criaturas que parecem, só parecem, terem saído de um livro de taxonomia, e estruturas de pelúcia dependuradas na galeria, que se comportam como o gesto máximo de uma reimaginação do natural.

No caso desses trabalhos escultóricos suspensos, formas inspiradas, talvez, nos formigueiros, uma memória estrutural do corpo se acende, como se uma anatomia humana desmontada viesse à tona e incitasse o que é próprio do universo subterrâneo das formigas. O grau de fabulação é, então, maior ou menor, mais ou menos embaçado, em cada uma das criações, mas sempre operando nesse espaço instável em que a imagem científica perde sua função explicativa e se abre para outras possibilidades de pensar o que convencionou-se chamar de natureza.

Caballero desenvolve trabalhos que ampliam o que é minúsculo para nós, humanos, não para detectar a realidade, como o desenho puramente científico faria, mas para convidar-nos a realizar aproximações e convergências, para pensarmos uma alteridade do minúsculo, do animal, isto é, daquelas vidas que não podemos apreender por completo. Quando amplia o que é, para nós, minúsculo, ela não está apenas dando visibilidade ao que talvez nos passe despercebido. O que está em jogo é, sobretudo, a criação de uma zona de espelhamento. De perto, os insetos, as formigas e os formigueiros deixam de ser estranhos e passam a nos lembrar dos nossos próprios corpos.

Na proposta curatorial de Allan Yzumizawa há uma recusa à mediação entendida como excesso de informação. Ele nos lança, sem evitar tensões nem correr riscos, diretamente às obras de Caballero, deixando-nos à mercê do encontro com um universo distinto e, ainda assim, inquietantemente mais parecido com o nosso, humano, do que gostaríamos de admitir. Yzumizawa aposta nos intervalos, quase imensas zonas de respiro entre as obras e, sobretudo, no diálogo com a precariedade institucional.

O teto baixo da Archidy Picado, as paredes brancas e o piso cerâmico branco, cotidianos demais, eu diria, são incorporados como parte da exposição. Ao desenhar formigas diretamente nas paredes da galeria e conduzir o movimento do olhar por direções que não se limitam à horizontalidade, a exposição reimagina o espaço, incluindo sua própria precariedade, e recusa a noção do espaço expositivo como neutro. Esse gesto dialoga diretamente com as obras de Caballero, nas quais o suporte e suas marcas não são apagados, mas atuam como elementos que inscrevem e situam as figuras no mundo.

Com exceção de um tecido que, a meu ver, se instaura como excesso e como ruído e que, em vez de sustentar as obras, as expõe a um desgaste simbólico e nos lembra da precariedade em que são produzidas as exposições, inclusive aquelas financiadas pelo governo do estado, as decisões curatoriais parecem todas acertadas, na medida em que se realizam um pensamento que se articula de forma coerente com as obras.

Voar nas alturas, adentrar nas profundezas, a meu ver uma das exposições mais interessantes realizadas no ano que se encerra na cidade de João Pessoa, promove, por meio de suas obras, uma restituição do minúsculo, isto é, das criaturas minúsculas como seres sociais, apresentando-as como dotadas de complexidade, organização e mundo. Cada obra desloca o olhar antropocêntrico e nos obriga a reconhecer que a importância desses seres não é alegórica nem decorativa.

Nas obras expostas na configuração em que se encontram, a poética promissora de Caballero parece perseguir sempre a mesma ideia, por meios diversos, porque nenhuma forma, por si só, parece dar conta do que busca ela abarcar. Trata-se da noção de que nenhum animal está separado do outro, de que há mais semelhanças entre humanos e insetos do que gostaríamos de acreditar. Nesse sentido, as formas que a artista revela, e que a curadoria percebe e amalgama, são exemplos de uma atenção e cuidado às existências pequenas em um gesto de reencantamento do mundo.

Enquanto outros artistas realizam rituais com pontas de cactos extraídos de biomas em risco de extinção ou buscam, de modo geral e inocente, transpor a natureza para o museu, como no caso da obra de Precious Okoyomon na 36ª Bienal de São Paulo, gestos que acabam por reiterar a linguagem do colonizador no trato da natureza como realidade passiva e apartada, a exposição de Caballero revela uma sensibilidade ecológica ímpar. Ela é ecológica não porque agride abertamente (e critica isso de forma clara), nem porque transpõe ou utiliza materiais naturais, mas porque intui que não existimos separados no mundo, que nosso corpo é, desde sempre, o próprio mundo que habitamos.

Voar nas alturas, adentrar nas profundezas revela, então, coalizões de imagens que parecem sempre falar da mesma coisa, a ideia de que nenhum animal existe separado do mundo e que, antes disso, o que existe é um grande corpo de conexões.

A exposição encontra-se em exibição até 23 de janeiro de 2026, na Galeria Archidy Picado, no Espaço Cultural José Lins do Rêgo.

 

Ronildo Nóbrega

 
 
 

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