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quando fevereiro chegar

Fevereiro ou fica, vai ter bolo, espetáculo de Natália Sá, do grupo Parahyba Rio Mulher, é a contemplação de uma relação.


crítica | teatro

Foto de divulgação

De tempos em tempos o marasmo da cena teatral pessoense é quebrado por algum acontecimento improvável, fruto de uma geração condenada a criar de modo solitário, sem dinheiro e quase que completamente à base de muito “amor ao teatro”. A responsável por tal quebra, dessa vez, é Natália Sá, do grupo Parahyba Rio Mulher, que revive a peça Fevereiro ou fica, vai ter bolo, um artefato cênico-documentário de 50 minutos sobre as fantasias de uma menina em relação a sua mãe atrasada, demorosa e ausente. Estreado em dezembro de 2019, momento em que nos preparávamos para a chegada da pandemia do novo coronavírus que dizimaria milhares de brasileiros, a atriz transforma a morte e o luto em motivos para criar teatro.

O mote dramatúrgico do espetáculo é uma festa de aniversário em que Natália Sá tem de lidar com a ausência da mãe. Somos alertados desde início, por ela, que a progenitora chegará em breve trazendo o bolo (como sempre o fez em suas festas anteriores). O evento acontece na iminência dessa chegada que, no decorrer da cena, se transmutará em completa ausência; iremos descobrir que a mãe da atriz não chegará com o bolo, não tanto porque ela sempre se atrasa ou sequer porque está morta, mas porque, talvez, ela nunca tenha estado lá. Esse lugar de espera que se constrói ao longo da performance, no entanto, parece gestar algo para além da tristeza e da melancolia.

Enquanto esperamos a chegada do bolo de que temos apenas a notícia de que chegará, a atriz conduz e realiza danças, narra histórias pessoais e reproduz discursos sobre existir e não-existir (tudo isso com base em uma interpretação ancorada no real, sem floreios de linguagem, impostação, gestos expansivos etc.). Todos os signos nos remetem a uma festa infantil dos anos 90; chapéus em formato de cone, balas embrulhadas e balões. O som inconfundível de Xuxa Meneghel, duas mesas posicionadas em lugares opostos e uma menina-atriz no centro nos leva a perceber a ilustração de um caso particular do campo de batalha que Sigmund Freud chamou de Complexo de Édipo ou de Electra, como queimam chamar (aqui, na peça, ele aparece devidamente invertido).

O palco está divido em dois. Em um dos lados tem-se a mesa à espera do bolo, a mesa-mãe, do outro lado tem-se uma outra com salgadinhos, suco e afins (observe a procedência dos signos, Freud dizia-nos que as escolhas que um artista realiza ao criar uma obra são capazes de revelar um pouco do funcionamento de seu inconsciente). Em posição contrária, tem-se uma mesa pouco utilizada pela atriz, uma mesa-quase-invisibilizada, uma mesa-figurante (Natália Sá, inclusive, dará pistas da apatia e depressão de seu genitor em um dos momentos mais escuros da peça). É nesse entre-lugar que a aniversariante tenta negociar o amor incondicional por sua mãe, representada e figurada por ela mesma como ausente.

Os sinais do hiato estão todos lá; pouquíssimo nos é dito sobre a mãe (a quem não nos é dada a mínima oportunidade de ter empatia). Natália Sá figura em seu espetáculo uma mãe quase desprovida de materialidade, uma mãe sem rosto. Não sabemos como ela se chama, onde nasceu, como era a sua aparência física, que tipo de roupa usava, quais eram os seus sonhos e/ou suas dores. O que sabemos sobre a mãe da atriz é apenas sugerido por ela; a mesma teria morrido de câncer devido a uma doença celíaca, ela se atrasava muito... ela era a última das mães a pegá-la na escola (se parece dolorido, se parece uma queixa é porque é).

Uma cena em particular é reveladora dessa questão, digo, dessa não-rostidade da mãe; o momento em que uma fotografia chocante da atriz enterrando a sua genitora nos é revelada. Novamente o que temos enquanto espectadores é um vazio; uma mãe sucumbida pela terra, sem rosto (como a mulher acamada no hospital, mostrada um pouco antes), mulher sem identidade fitada por uma criança-mulher (a contemplação é também um sinal de distanciamento, afinal, para toda contemplação há a necessidade de uma demarcação de espaço que separa mais ou menos o contemplador, isto é, quem contempla, do acontecimento contemplado).

Nesse sentido, Fevereiro ou fica, vai ter bolo é mais uma obra que aparece para compor o acervo local de artistas que se põem a abordar e compreender, de modo mais ou menos intenso, a relação com as suas mães. Se aproximam desta mesma temática as obras Travessia, de 2018, de Kassandra Brandão, do grupo Graxa de Teatro e os solos Por um fio, de 2022, de Diocélio Barbosa pela Trupe Arlequin e Midríase, também de 2022, de Joyce Barbosa pela Cia. Paralelo. No âmbito nacional, Fevereiro dialoga numa perspectiva de seu tema com Stabat Matter, de 2019, de Janaína Leite e Processo de conscerto do desejo, de 2016, de Matheus Nachtergaele.

Um dos fatores que diferencia a obra de Natália Sá de todas essas outras é a qualidade de presença da mãe (no caso de Janaína Leite e de Diocélio Barbosa essa presença chega a ser literal, no sentido de que elas não só testemunham como participam dos acontecimentos cênicos). Em Fevereiro ou fica, vai ter bolo a mãe (quase) não está lá (e, se está, essa existência é mínima). Ela é orquestrada, conscientemente ou não pelas decisões da encenação, enquanto presença pairante, fantasmática (mãe-atrasada, fora de hora e, talvez, fora de ordem). Em se tratando de um espetáculo biográfico-documental, Natália Sá concilia duas coisas antagônicas; ao mesmo tempo em que parece oferecer uma singela homenagem à sua mãe, parece também mapear de modo bastante sutil uma ausência, um buraco.

O espetáculo revela, conscientemente ou à própria revelia, o olhar de uma filha para uma mãe que parece não ter correspondido completamente às suas expectativas (e as mães, nossos primeiros amores e por quem aprendemos a morrer de amor, são tão poderosas que até mesmo a sua falta é capaz de mover, de pôr artistas em movimento a ponto de dedicar-lhes espetáculos inteiros, nem que estes tenham sido criados a base de muita culpa, remorso e autopunição). Mais do que um espetáculo sobre o luto, sobre as dores de perder alguém importante, Fevereiro ou fica, vai ter bolo é, ao meu ver, um retrato intimista daquilo que permanece quando o outro desaparece.

Por todos esses aspectos, Natália Sá nos leva a contemplar, em um espetáculo que dá margem a diversas interpretações, a sua relação com a mulher que lhe deu à luz. Na festa que organiza e onde a celebração é sinônimo de renascimento, a última fase do luto é equivalente àquela ideia de que conseguimos existir sem as nossas mães e, principalmente, sem a fantasia que a sociedade e que nós mesmos criamos em relação a elas. Como canta o pernambucano Geraldo Azevedo em seu disco De outro maneira, de 1986, “quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente”. E sim, a vida continua, iremos rir, iremos chorar.


texto publicado em

22/01/2023


escrito por ronildo nóbrega,

professor, crítico de arte e artista multimídia



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