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ferida exposta: crítica de 'filoctetes em lemnos', de vinicius torres machado.

  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

 crítica | teatro



Fotografia: Ju Paié, Helyana Manso


Exibido na MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo) como parte da Plataforma Brasil, eixo voltado à produção brasileira, Filoctetes em Lemnos é um acontecimento que aposta na capacidade do teatro de, indiretamente, muito indiretamente, reinserir o espectador nas questões pulsantes do mundo.

O solo, concebido e performado por Vinicius Torres Machado, inspira-se no mito de Filoctetes, um herói ferido e abandonado numa ilha, para expor o espectador à solidão crua de um performer igualmente ferido, sem parte do nervo ciático, consequência de um tumor, que luta e encara a própria solidão. Sem despejar uma palavra sequer e sem recorrer à “moda” do teatro documental e suas técnicas, a encenação aposta na materialidade do corpo lesionado, limitado, sobrevivente, onde o corpo encontra o mito grego.

Como Filoctetes, Vinicius Torres Machado expõe o próprio corpo “empurrado” para fora do mundo por uma condição, uma lesão que promove uma espécie de suspensão, um deslocamento até uma margem irreversível, cuja consequência é inseri-lo de outro modo no mundo: paralisante, às vezes recheado de agonia, mas também contemplativo.

Filoctetes, habitando sua ferida imobilizante, encontra-se excluído do mundo e, nessa suspensão, ele é capaz de encarar a engrenagem da guerra. O clímax da obra, se é que se pode usar esse tipo de nomenclatura para uma peça que foge completamente da estrutura de um teatro dramático e narrativo, apresenta-se na ligação entre uma coreografia de movimentos mínimos do performer e a aparição nevrálgica da sonoplastia e da iluminação, que começam quase discretas, mas depois tomam um rumo inesperado dentro da estrutura. No desenho sensível da iluminação, o trabalho de Dimittri Luppi e Wagner Antônio é altamente expressivo, sobretudo quando escapa à ordem de previsibilidade que mantém até certo ponto da obra. Nesse instante, eles não só conduzem o olhar do espectador à materialidade da cena, mas também mergulham-no numa espiral de sensações, tensionando a peça com cores e movimentos até então estranhos.

O trabalho é extremamente eficaz naquilo a que se propõe: provocar o espectador a encarar a imobilidade, os micro-movimentos, os deslocamentos quase imperceptíveis que sufocam e comprimem quem testemunha. É nessa economia de gestos, tão bem dirigida por Mariana Tranjan, que a sensação de clausura, mas também, talvez, de sua necessidade, é posta em cena. É nesse fluxo que o tempo, a dor e aquilo que é próprio da condição humana se revelam na obra.

Há um fator que torna Filoctetes em Lemnos uma peça atual e necessária. Ela mostra que o teatro se expande sempre pelo contexto, mesmo que pulse a quilômetros de distância ou por fios esparsos, quase invisíveis, conectando-nos a realidades das quais não podemos nos eximir. Diante do genocídio palestino perpetrado por Israel, assim como da atual guerra contra o Irã com o auxílio dos Estados Unidos, a obra parece, talvez, apenas talvez, nos revelar que a contemplação gerada pela micro-imobilidade imposta pelas feridas, e não o movimento ou a ação, é capaz, na conjuntura atual do mundo, de nos colocar diferentes.

            O que a obra deixa entrever, de forma potente, é que a ferida, às vezes real, às vezes simbólica, às vezes apenas a percepção súbita da vulnerabilidade humana, é capaz de nos colocar um pouco fora do acontecimento e de interromper a adesão automática ao mundo tal como ele funciona. Quando o corpo é ferido, o que se passa é que deixamos de ser alguém que faz coisas e passamos a ser alguém que sente o mundo. O afastamento social intensifica a relação com o real, com a máquina-mundo. A ferida pode criar uma posição externa, um “fora” a partir do qual o mundo se torna visível. Quem não pode participar plenamente passa a enxergar as regras do mundo com nitidez brutal. Em outras palavras, quando um corpo não cabe, o que se revela é que o mundo nunca o projetou como parte de si.

Filoctetes em Lemnos expõe como o teatro pode ligar-se a algo mais universal: a possibilidade de a experiência estética, ética ou existencial produzir no espectador uma suspensão semelhante. Talvez a micro-mobilidade de Filoctetes nos desarme porque suspende o imperativo contemporâneo da ação, do reagir incessante, um imperativo que nos obriga a permanecer onde normalmente apenas passaríamos adiante, cumprindo o que esperam de nós. Digo, não nos faltam informação nem ação; falta-nos a capacidade de permanecer diante do humano sem convertê-lo imediatamente em opinião, estratégia ou ruído.

O corpo e a agonia de Vinicius Torres Machado em cena, talvez só talvez — já que o espetáculo não trata disso de forma direta, e aqui me prendo às minhas próprias questões —, nos ensinam que falta a capacidade de permanecer diante do humano sem transformá-lo imediatamente em ação, estratégia ou ruído. Não precisamos ser isolados como Filoctetes; precisamos, sim, ser menos disponíveis e mais capazes de permanecer com a dor, a nossa e a alheia. Se conseguíssemos essa pausa, essa atenção concentrada, talvez antes de agir evitaríamos algumas guerras. O que interrompe a barbárie — e, no caso de Filoctetes, ex-guerrilheiro e, portanto, agente da barbárie — não é necessariamente a fraqueza do corpo, mas a fratura da adesão.


Texto publicado em 12 de março de 2026

Escrito por Ronildo Nóbrega.


 
 
 

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