procurando vontades; crítica de 'no coração da lua', do grupo estação. crítica | teatro
- há 1 dia
- 3 min de leitura
crítica | teatro

Mais recente espetáculo do Grupo Estação, de Natal, No Coração da Lua está em circulação pelo país pelo Palco Giratório e acompanha as transformações de Luana, uma criança à procura de certo brilho perdido. Com direção de Rogério Ferraz e dramaturgia de Tonho Costa, o espetáculo toca em temas como a ansiedade e a saúde mental na infância.
Na apresentação da última terça-feira, em Campina Grande, acompanhamos a jornada de Luana, interpretada por Maria Flor, uma criança negra que se vê diante de um sentimento, uma sensação de deslocamento, talvez, com a qual não sabe lidar. Os pais de Lua, materializados por cabeças gigantes, introduzem o problema da peça: a ansiedade de se encaixar em uma sociedade dos grandes, que demanda das crianças um projeto de futuro. O contraste entre a protagonista, sentada, quieta e indisposta, e as cabeças berrantes e eufóricas, cheias de verdades sobre existir, produz um impacto ao mesmo tempo lúdico e revelador no espectador.
“O que você quer ser quando crescer?”, a pergunta aparentemente inocente, repetida incessantemente, convoca a ansiedade da adaptação de Luana a uma sociedade que pensa o futuro como possibilidade calculável e programável, e onde a opacidade e a deriva, talvez duas das características mais marcantes da infância, aparecem como signos a serem combatidos. Entretanto, se essa questão emerge de maneira provocativa ao longo da cena, logo é acompanhada por uma outra ansiedade: a dos próprios artistas de responderem à própria pergunta.
Da percepção do desencaixe até o estabelecimento de sua ordem interna, Luana passeia por um mundo de fadas, bruxas e baratas. Com uma clara reciclagem da velha jornada do herói, No Coração da Lua chega a um resultado autoconsciente, às vezes até autoexplicativo, relegando ao seu público uma ideia chapada e até mesmo moralizante de um tema complexo que, mais do que respostas definitivas ou finais felizes, demanda uma abordagem outra que não a clássica ideia de que tudo vai ficar bem ou de que tudo pode ser facilmente resolvido.
Para além do tema de enorme importância que a obra ventila, há algo de muito conservador na estrutura dramatúrgica do espetáculo. Ela funciona quase como uma sessão de psicoterapia funcional, mecânica e instrumental. Como se não confiasse na inteligência imaginativa da criança, a peça ofereçe uma resposta confortável e até mesmo previsível para uma questão complexa. Sobre isso, Lua é representada dramaturgicamente como ciente por demais de sua própria confusão e tristeza e, ao procurar uma solução para seu desencaixe, encontra um gênio, o escitalopram do teatro infantil, que resolve suas indisposições em um esquisito passe de mágica. O espetáculo parece, assim, repito, transformar uma experiência descontínua em uma narrativa por demais simplificadaora.
O caráter imagético do espetáculo não disfarça o forte apelo ao elemento verbal que, sem uma atuação vigorosa, perde-se em gestos apáticos, saturados e até mesmo desenergizados. Com exceção de Dudu Galvão, a quem é um deleite ver em cena, os outros atores aparecem sem o vigor que este tipo de teatro requer. Digo, quando não impõe energia suficiente à palavra, a atuação de alguns se perde na superfície, pecando em presença, ritmo e até precisão.
Há, me parece, uma contradição entre aquilo que a obra quer fazer as crianças e adultos experimentarem e a forma que escolhe para implementar tal atitude. E, num certo sentido, acredito, é como se ela reproduzisse, em sua própria forma/estrutura, aquilo que parece querer questionar: a necessidade de transformar a vida em projeto, de saber o que ela significa e, sobretudo, que direção ela deve tomar de antemão.
Fundado em 2009 e com reconhecida experiência no teatro para as infâncias, o Estação de Teatro retoma, com No Coração da Lua, as questões do grupo sem a intensidade e inventividade de espetáculos anteriores, a exemplo do delicioso e divertido Guerra, formigas e palhaços. É uma obra que responde à crise de imaginação de que falam alguns autores contemporâneos com respostas prontas, com uma dramaturgia que reduz ainda mais o espaço para imaginar (mesmo que em alguma medida tematize a própria imaginação, o que é curioso).
Talvez o teatro para as infâncias possa confiar um pouco mais naquilo que não compreendemos, oferecendo não respostas para a vida, mas sensações, imagens e percepções capazes de ampliar o campo do imaginável. Afinal, talvez procurar uma vontade não seja encontrar, ao fim da jornada, aquilo que se quer. Talvez seja poder permanecer, por algum tempo, sem saber, na própria procura.
Texto publicado em 21 de agosto o de 2026 por
Ronildo Nóbrega, professor, pesquisador e crítico de arte.




Comentários