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o que juliette, a carta da torre do tarô de marselha e o filme o convite têm em comum? crítica de 'o convite', de olivia wild.

  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

 crítica | cinema


Imagem do filme O convite, de Olivia Wold.

            Um raio, uma torre, corpos caindo complacentes. No Tarô de Marselha, uma das leituras da carta da Torre, em que uma estrutura vertical de um castelo é atingida por um raio, o desmoronamento de uma grande estrutura é posto em cena, demonstrando a reconfiguração radical das peças de um acontecimento. Como nas outras cartas desse baralho, as imagens apresentam elementos que se sobrepõem em uma temporalidade que não é cronológica. O raio atinge a estrutura ao mesmo tempo que a torre desmorona, ao mesmo tempo em que duas pessoas caem, quase complacentes, como quem é obrigado a aceitar o próprio destino, isto é, a destruição iminente da estrutura que outrora os abrigava. Essa carta, que dá medo a alguns consulentes iniciantes, é uma porta de entrada para a leitura de O Convite, da atriz e diretora americana de origem irlandesa Olivia Wilde.

Um apartamento grande, decorado com paredes de cores frias e que, aos poucos, passa a se assemelhar a uma grande prisão, é quase o único lugar onde se passa a maior parte da comédia-quase-não-comédia de Wilde. É lá que Joe e Angela, interpretados por Seth Rogen e própria diretora, Olivia Wilde, começam a se desentender sobre um convite que a esposa de Joe teria feito aos vizinhos, Piña, interpretada por Penélope Cruz, e Hawk, “falcão”, em português, personagem interpretado por Edward Norton. Representada pelo controle obsessivo, pelo desajuste e pelo desespero, talvez tendo em mente a salvação da relação, Angela e o esposo, que se acomodou à monotonia dos dias, parecem mais dois soldados lutando uma guerra do que um casal.

            O raio que parte o castelo, isto é, a casa de Joe e Angela, atinge-o quando ela, Angela, insiste em convidar seus vizinhos, Piña e Hawk, para um jantar, um casal conhecido pelos anfitriões pelos ensurdecedores barulhos sexuais. O cenário do desastre está dado. O contraste entre os casais é evidente. Enquanto os anfitriões parecem apenas brigar e ter uma vida sexual medíocre, os convivas não só falam sobre transar entre si, como também falam das orgias que organizam entre amigos, tudo baseado, segundo os próprios, em acordos bem definidos. Com direito a cardápio de práticas sexuais e tudo, a própria Angela, que poderíamos ler como um sintoma das dinâmicas patriarcais da sociedade, se antecipa, como geralmente fazem as mulheres que foram treinadas dentro da lógica patriarcal, ao cuidado e à reparação. Ela supõe que o problema de seu relacionamento é a falta de sexo, quando, na realidade, é anterior, muito anterior, a isso.

Piña e Hawk, “o falcão”, que é, num certo sentido, detestado pelo hipócrita e autodepreciativo Joe, ávido por uma noite sexual que poderia resolver os seus problemas, falam espanhol, uma língua que, no decorrer do filme, se apresenta como o outro, o estranho, o desconhecido pelo casal anfitrião. O desastre é iminente: a torre começa a ruir antes mesmo que os convivas, que já percebiam os sinais do descompasso de Angela, testemunhem, do lado de fora do apartamento, diga-se de passagem, bem maior do que o deles, uma longa briga entre o casal.

            O filme, no entanto, me parece falar menos sobre ser desconstruído em relação ao sexo, algo que a leitura de um amigo do Instagram sugeriu, e mais sobre sintonia e capacidade de reconciliação. O problema de Angela e Joe não é, necessariamente, a falta de sexo, mas o curto-circuito de repetição mortífera em que ambos, por circunstâncias diversas, pelo percurso da própria vida, talvez tenham sido contingenciados. Quando Pina, uma psicoterapeuta e sexóloga estrangeira, diz para o casal de anfitriões que “não há amor”, ela faz um diagnóstico, a meu ver, menos do fim da relação e mais de uma forma de se relacionar da qual a empatia e a banalidade da convivência cotidiana os retiraram.

            Mas e Juliette, nossa paraibana de estimação? O que ela tem a ver com isso? É que ela relatou, certa vez, em um episódio do Saia Justa, programa do GNT em que é uma das apresentadoras, uma espécie de cena cinematográfica da vida real: como a estagnação e a paralisia a impediram, durante três anos, de findar uma relação que, segundo ela, já não se sustentava havia tempos. Ela clamava para que o ex-namorado a traísse; assim, ela teria um motivo para deixá-lo. Entre a culpa feminina e a imposição do cuidado, tão presentes nas sociedades patriarcais, Juliette decidiu colocar suas roupas em um lençol e partiu. Na fala de Juliette, o desabamento da torre, de algo que já não se sustentava, a levou a tomar uma decisão que vinha adiando havia três anos. Às vezes, o desmoronamento da estrutura leva exatamente a isso; às vezes, ele é a ponte para um recomeço.

            O que aconteceu com Juliette não é exatamente o que acontece com os personagens do filme de Olivia Wilde. Na realidade, o final é bastante aberto para tomarmos qualquer conclusão sobre o caso. Depois de todo o caos do jantar, da partida dos convivas, da tentativa de se envolverem em uma relação de troca de casais e afins, Joe volta a tocar piano e, ao lado dele, Angela o acompanha. Não sabemos, aqui, se os dois, tocando uma música no piano empoeirado de Joe, significa o fim ou uma mudança radical de status da relação. Mas é certo que algo se rompeu dentro da estrutura que os abraçava, e a torre, atingida pelo raio, agora se confunde com escombros.

O fim da antiga relação de Juliette todos nós saberemos, mais ou menos, através daquilo que ela mesma disse, diferente do destino de Angela e Joe, que Olivia Wilde sabiamente nos preserva, como quem deixasse à mercê de nós mesmos, espectadores de todo aquele desgaste, pensarmos não sobre eles, mas sobre a nossa responsabilidade de associarmos aquilo que foi visto às nossas próprias relações, às nossas próprias vidas. Afinal, o filme é menos sobre suingue, sexo a quatro ou coisas desse tipo, e mais sobre o enfado do cotidiano e a capacidade mortífera que a falta de empatia e de escuta pode ocasionar nas relações. Casar-se é, afinal de contas, aqui, menos um ato religioso ou jurídico do que um compromisso profundo com o outro e, nesse sentido, abro aspas, casamo-nos o tempo inteiro com o trabalho, com nossos amigos, com a nossa casa... e, diante da repetição que nos tende à morte, é preciso entender, quando a torre se partir ao meio, quando o que vale apena deixar para trás, quais coisas podem ser levadas e quais coisas podem ser reconstruídas.

Como um chamado para sentir a estrutura da estagnação e da repetição mortífera das relações, O Convite, de Olivia Wilde, abre a porta para repensarmos a paralisia e o fim das relações não como apocalipse, mas como ruptura de uma composição que não mais se sustentava.



Texto publicado em 14 de agosto o de 2026 por

Ronildo Nóbrega, professor, pesquisador e crítico de arte.




 
 
 

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