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sobre mulheres e geladeiras; crítica de 'réquiem para geralda', de ana marinho.

30 de ago.
4 min de leitura

crítica | teatro


Uma geladeira sexagenária, um trambolho ao mesmo tempo pesado e perigoso, uma herança e um acerto de contas pelos caminhos do teatro. Réquiem para Geralda é um solo autobiográfico de dois nomes próprios. O de uma mulher, Ana Marinho, professora de literatura da Universidade Federal da Paraíba, e Geralda, uma antiga geladeira da marca General Motors. É entre esses dois nomes e os fantasmas que eles evocam, afinal um nome próprio carrega dentro de si uma série de outros, que a cena/enterro se constrói. Quem testemunhou os acontecimentos na última sexta-feira na Usina Cultural Energisa foi levado a traçar paralelos entre ambas, substantivos femininos, e a sentir que, embora pareçam radicalmente diferentes, Ana e Geralda compartilham mais coisas do que imaginaríamos de antemão.

Com uma estrutura relativamente simples a peça é, ao mesmo tempo, uma sessão de desmonte de uma geladeira e de um roteiro/fantasia: a do que significa ser mulher. Geralda chega para Ana Marinho carregada de família, de publicidade e de um comando com o qual ela tem de negociar, um roteiro de feminilidade que não consegue simplesmente seguir, não por incompetência, mas por puro desencaixe. Em cena, ela apresenta um pouco desse roteiro, falha diante dele, sofre e faz outras pessoas sofrerem. Quando a atriz, que é também dramaturga da peça, amola uma faca ou usa uma desparafusadeira elétrica, ela tem em mente um alvo: um certo ideal de mulher que pesa e que se materializa quando ela prega imagens de grandes ímãs na porta da geladeira. Mas um ideal com o qual se luta nunca paira no além, ele nunca é só um ímã. Ele é matéria viva, incorporada. Às vezes, tem o rosto das (outras) mulheres da família.

E assim ela segue o desmonte. Retira parte do figurino, canta, confessa suas histórias, como se afrouxasse alguma coisa dentro dela mesma. No Réquiem dirigido por Duílio Cunha, Ana e Geralda, a geladeira Frigidaire herdada de sua família, são feitas de pedaços. Ambas são, a um só tempo, objeto e sujeito do espetáculo, não necessariamente nessa ordem. Talvez seja justamente aí, nesse gesto de desencaixar, que o espetáculo encontre uma de suas questões centrais, isto é, como sair (ou simplesmente lidar) com aquilo que, durante décadas, configurou uma prisão.

Peça-resposta a outro espetáculo, um outro solo de Marinho estreado em 2016 chamado Razão para Ficar, que abordava a solidão de mulheres abandonadas em abrigos, Réquiem para Geralda guarda semelhanças e diferenças. O tema da prisão se repete, porém, de maneira atualizada. Diferente do primeiro, em que a protagonista aparecia confinada em uma espécie de clausura, um retângulo que a oprimia e do qual talvez não existisse saída, aqui é a própria atriz, nomeada, historicizada, que aparece aprisionada na geladeira... Contudo, se há prisão, há uma outra camada que é a possibilidade de abrir a porta e olhar, investigar os arredores, de violetar e desafrouxar suas peças/juntas, seja com faca ou desparafusadeira.

Mas a possibilidade de desmontar uma prisão não significa que o fantasma simplesmente se deixe desmontar completamente. Dentre as materialidades cênicas, que a atriz ironiza em cena como um tipo de vocabulário “contemporâneo”, encontra-se um tipo outro muito incomum, as materialidades cínicas. Mais do que matérias-enfeites, adornos passivos, essas materialidades são daquele tipo que não colaboram totalmente com a cena. Não se deixam converter em mero signo, mero adorno. É o caso de Geralda, a quem é reconhecido, indiretamente, um certo tipo de vitalidade, de história e até de agência. Geralda pesa, demanda força, obstaculariza o movimento da própria atriz no espaço.

Mas o cinismo de Geralda não para aí. E há algo de irônico e duro que a geladeira revela. Mesmo desmontada, Geralda continuará gelando carnes. Não porque não consiga cumprir sua função, afinal, ela é um obstáculo com o qual, até certo tempo, a atriz não sabia o que fazer, mas porque desmontá-la não destrói completamente os mundos que ela produziu. Digo, em outras palavras, que, por mais que se enterre o defunto, o espectro sempre retorna de modo que nunca nos livramos completamente de sua herança. Mesmo desmontada, alguma coisa em Geralda continua a gelar a carne.

Quando a atriz termina o espetáculo com um vestido preto brilhante, como se recusasse de modo simples o luto/fúnebre e acrescentasse a ele uma boa dose de glitter, não é o fim da fantasia/roteiro que foi herdado que está em cena, mas uma outra relação com essa herança. Quando Marinho serve cerveja ao público, ao fim do espetáculo, há algo de irônico em tudo isso. Enquanto bebemos, Geralda continua lá. Desmontada, mas ainda lá. Talvez seja essa sua última lição, a de que nunca nos libertamos completamente das coisas (e dos espectros!), mesmo que aprendamos, se é que é possível, a assombrá-los com facas amoladas.

Mas, para além de toda essa discussão do cinismo das materialidades, penso que o espetáculo é também uma série de perguntas; como o teatro na Paraíba, da qual a atriz faz parte de sua história nas últimas décadas, fabricou mulheres em cena? O teatro seria capaz, de algum modo, de fazer algum tipo de justiça? São perguntas gigantescas, certamente, às quais não ousaria, aqui, uma resposta. Mesmo que Réquiem para Geralda seja um espetáculo que nos leva a pensar que, às vezes, somos nós o objeto e que os objetos não apenas carregam nossas histórias, mas muitas vezes as produzem, ele apresenta a possibilidade de que velar um defunto (e, de certo modo, fazer justiça!) é sempre negociar com aquilo que fica, às vezes ao lado, enquanto tomamos cerveja, às vezes no ferro-velho.


Texto publicado em 30 de agosto o de 2026 por

Ronildo Nóbrega, professor, pesquisador e crítico de arte.







 
 
 

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