cansar fantasmas; crítica de 'a febre', da paralelo companhia de dança.
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crítica | dança

Confrontar o fantasma, cansar a herança. É assim que Joyce Barbosa se movimenta em A Febre, uma coreografia de ebulição para um corpo disposto a devolver ao assombro uma boa dose de assombração.
A mais recente estreia da Paralelo Companhia de Dança, um dos mais tradicionais grupos de dança cênica da Paraíba, é também a obra mais madura de uma companhia cujas criações anteriores frequentemente chegavam ao público densamente carregadas de conceitos e sentidos a serem elaborados. Diferentemente de boa parte desse repertório, o solo dançado por Joyce Barbosa parece menos interessado em dizer algo do que em fazer alguma coisa acontecer no corpo do espectador, concentrando-se na potência da presença, da materialidade e das sensações.
Em cena, a bailarina divide um palco banhado de escuridão com a baterista Eliza Sonoriosa e com um fantasma que assombra a performance do início ao fim: o disciplinamento do corpo pela dança, cujos signos do balé clássico aparecem como uma espécie de condensação histórica.
O inteligentíssimo uso do preto no figurino e na cenografia, ampliado por um uso igualmente inteligente e desconcertante da luz, dá ao espectador quase um recorte de um rosto e, mais especificamente, de um cabelo, de uma feminilidade disposta a cansar uma herança que a assombra, que tenta de modo fantasmagórico paralisá-la, obstruir seus movimentos. E sobre isso, o cabelo indomesticado não cansa de crescer em cena, chicotear e desenhar o espaço em uma dramaturgia que produz para ele a oportunidade de exceder a forma que tentaram lhe impor.
É difícil não lembrar de Marina Abramović escovando violentamente os próprios cabelos em Art Must Be Beautiful, Artist Must Be Beautiful, de 1975, como se a beleza da arte pudesse ser produzida pela repetição disciplinar de um determinado gesto. Barbosa faz algo parecido em cena, pois sua dança é assombrada, mais do que pela sapatilha, por ideias e ideais de dança. Só que, enquanto Abramović torna visível a violência escondida numa prática aparentemente banal, a peça, além de reconhecer tal violência, responde a ela com uma boa dose de indomesticação capilar.
Se sentimos/sabemos que a mulher que presenciamos em cena está lutando contra alguma coisa, algo que ao mesmo tempo pesa e pede exorcismo, as sapatilhas, porém, tornam esse fantasma imediatamente reconhecível. Esse é o momento em que a peça parece querer explicar demais algo que está lá e que não necessitaria de uma legenda teatral, no pior sentido da palavra.
São raros e, ao mesmo tempo, desnecessários os momentos em que a peça recorre ao teatro para criar em cena um comentário sobre a dança porque, a meu ver, antes de reciclar o clichê das imagens das sapatilhas de ponta e, em contrapartida, as dores que essas matérias/ideias de dança causam à bailarina, o espetáculo já conseguiu, muito antes disso, um forte e, às vezes, aterrorizante comentário sobre a herança do ser-para-o-movimento que caracterizou a dança cênica nos últimos séculos e, o que mais me impressiona, sem apelar à paragem e à “ausência” de movimento, como têm feito alguns coreógrafos nas últimas décadas.
Nesse sentido, o espetáculo dirigido por André Morais se confunde, em certos momentos, com uma coreografia para um rosto/cabelo em chamas, talvez bastante consciente de que pesa sobre si mesmo determinadas ideias sobre o que significa dançar. E, sobre isso, os mais pulsantes e aterradores momentos da peça nascem quando o corpo está simplesmente em cena, presente, dançando de modo ininterrupto em resposta a uma outra coreografia: a produzida por Eliza Sonoriosa.
E aqui, há de se falar da indiscutível contribuição e do efeito de presença que a bateria provoca no espectador, o que me leva a pensar que não se trata de um solo, mas de um pas de deux. Mais do que pôr uma música para uma dança, o som produzidos por Sonoriosa no palco é ele mesmo uma desconcertante presença que parece assombrar a dança. Como quem simplesmente ordenasse: “dance!”, a bateria (e não outro instrumento, diga-se de passagem), com suas frequências graves, seus modos de ataque compostos por sons muito transientes, produz um impacto, uma espécie de golpe tanto na bailarina quanto no espectador. Sendo assim, antes mesmo de qualquer tentativa de “comentário crítico” sobre a dança, sua história e o modo como produz subjetividades, o que me parece um enfeite desnecessário para uma peça que já abriu um caminho muito mais interessante de leitura pelo corpo e seu desgaste físico, pelo diálogo com a materialidade do som especificamente produzida pela bateria, pelas escolhas de figurino e de cenografia e afins, a crítica à dança está lá, antes mesmo de ser "anunciada" como uma espécie de publicidade ao espectador.
Sem dúvida, uma das melhores e mais potentes estreias da Paraíba deste ano, um estado assombrado ele mesmo pela ideia de um teatro e de uma dança contemporâneos que, parece, nunca consegue realizar plenamente, pois muitas vezes confunde um modo de existir/criar da cena com uma receita de bolo repleta de códigos. Sem objetos esquisitos na cabeça, sem longas paragens e sem microfones, A Febre é uma dessas raras exceções em que, por esse fim de mundo, certa etiqueta cabe de maneira apropriada.
Texto publicado em 23 de agosto o de 2026 por
Ronildo Nóbrega, professor, pesquisador e crítico de arte.




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