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quem tem medo de papangú ou performances do autoritarismo em tempos eleitoreiros

  • há 6 horas
  • 5 min de leitura

ideias



Fotografia: Brunno Martins


Em tempos de eleições polarizadas, a arte retorna ao centro do debate público não como aquilo que pode alimentar ou discutir a realidade social, afinal a cultura parece ocupar um dos últimos lugares nas discussões públicas, mas como um elemento que posiciona o brasileiro entre dois extremos políticos. É exatamente nessa época, em que os interesses eleitoreiros desabrocham às pencas, que a arte, em especial aquela de caráter questionador, é redescoberta por perfis conservadores como algo capaz de acionar a indignação de seus eleitores. Não dá para saber se é má-fé ou apenas o antigo hábito de transformar qualquer registro retirado de contexto em combustível para indignação instantânea. Convenhamos, a ignorância ocasional até se explica, o problema surge quando expressões artísticas passam a ser capturadas de forma leviana para angariar eleitores.

A vítima da vez é o dançarino e coreógrafo potiguar Alexandre Américo, ex-diretor artístico da premiada companhia de Natal, a Giradança. Estudante de doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Américo sequer havia terminado a curta temporada de estreia de sua mais recente criação, o solo Papangú, um flerte entre dança e pintura, quando se deparou com uma série de acusações e ameaças. Apresentada nos dias 11, 12 e 13/05 na Galeria Laboratório do departamento de artes da mesma universidade, Américo viu circular por aplicativos de mensagens e pela internet imagens de seu espetáculo completamente retiradas de contexto.

Em mais um exemplo de circulação fragmentada e descontextualizada, trechos de Papangú foram rapidamente transformados em ameaça moral em um vídeo do vereador da capital potiguar Matheus Faustino, do União Brasil, que, em plena preparação para disputar uma vaga no Congresso Nacional, parece ter encontrado na dança contemporânea não só uma ameaça existencial, mas uma plataforma de campanha. Em seu vídeo, Faustino destila acusações e chama os recortes de Papangú, coreografia que ele sequer assistiu, de “show de horror e putaria paga com dinheiro público”.

Como se fosse possível que uma obra tão cheia de camadas e nuances como a de Alexandre Américo pudesse sobreviver intacta ao recorte de alguns segundos em uma página de Instagram, o vereador replica um antigo script da política autoritária recente. O parlamentar aciona um fragmento, retira-o do ambiente em que a obra acontece, invoca a inocência das “crianças”, mesmo se tratando de um ambiente universitário, convoca o financiamento público da arte e transforma a peça em prova de escândalo moral.

O que há de lamentável nesse caso é que o vereador, que ameaçou ir assistir à peça no dia seguinte à exposição online, não compareceu, o que, em certo sentido, preservou intacta a possibilidade de entrar num embate corpo a corpo com a obra e, talvez, de sair dali diferente. Sim, talvez eu esteja enganado, afinal, pode-se esperar os maiores níveis de rigidez de tal gente. Isso revela, em menor escala, um problema mais amplo na forma como a arte aparece na esfera pública no Brasil, em que o contato direto com a obra é substituído quase sempre por mediações. Tenho a sensação de que o brasileiro acessa a arte mais por livros escolares, imagens na internet e outros recortes do que pelo lugar da experiência concreta, o que configura uma forma de censura indireta.

É importante lembrar que não se trata de algo novo. O Estado brasileiro nasce ele mesmo da/na censura. Mesmo antes da perseguição às artes e aos opositores políticos, aqui se interditaram línguas, cosmologias e modos de existência indígenas. Desde a colonização até os dias atuais, a repressão às artes muda de forma, mas raramente desaparece, atingindo um de seus momentos mais brutais durante a ditadura militar (1964–1985), quando artistas e opositores políticos foram perseguidos, torturados e assassinados.

O fenômeno tem se intensificado, contudo. Nos anos posteriores ao golpe que retirou Dilma Rousseff da presidência, multiplicaram-se episódios de cancelamento, suspensão ou adiamento de exposições, além de perseguição e difamação de artistas na internet, uma tendência que se intensifica quando aspirantes a messias fazem da ignorância uma estratégia eleitoral e da cultura um inimigo útil. Esses episódios, ao contrário do que se possa pensar, não são exclusivos das regiões Sul e Sudeste, onde os cargos públicos e os eleitores têm se identificado com o campo da direita e da extrema direita.

Na era digital, contudo, a censura não nasce da farda, basta um celular, um recorte fora de contexto e algum interesse ideológico-eleitoreiro para estimular uma série de ataques à arte e aos artistas, movimentos que destroem reputações e circulam desinformações. Novamente, quem sai perdendo é, adivinhem, a arte.

Nesse ambiente, os ataques, embora se articulem sobretudo nas redes sociais, acabam por ultrapassar o espaço digital. Outro caso ocorrido na cidade de Natal é prova disso. O recente caso envolvendo a performance de Alexandre Américo soma-se a outro ainda mais grave, o de um policial militar que disparou uma arma de fogo contra artistas durante uma oficina do Margem Hub, no bairro Lagoa Nova, em Natal, no dia 11 de abril de 2026. Esses episódios mostram que a arte aparece chapada como algo a ser expurgado ou corrigido, frequentemente enquadrada como desvio moral ou degeneração. Esse tipo de enquadramento ecoa a retórica de regimes autoritários do século XX, como o nazismo, que também mobilizavam a ideia de “arte degenerada” para incitar perseguições culturais e políticas.

Há um outro fator em jogo. Esses casos mostram como o ambiente de censura, perseguição e criminalização das artes se intensifica, sobretudo em períodos eleitorais, quando produções culturais de caráter provocativo ao status quo passam a ser usadas como instrumentos de polarização política e de estímulo ao embate entre grupos. Nesse contexto, o papangú, essa figura excêntrica, esse monstro que amedronta ao mesmo tempo em que expõe as nuances da sociedade, tão conhecido nos interiores do Nordeste, não poderia soar melhor como metáfora de uma arte crítica, que assusta, mas também faz a gente enxergar melhor a realidade em que estamos inseridos. Quem tem medo de papangú, e os casos recentes mostram isso, são aqueles que se veem ameaçados pela sua verdade, pelo seu corpo, sua raça, sua sexualidade desviante, pela sua capacidade de desestabilizar certezas e propor uma alternativa à configuração atual do mundo.

Sendo assim, em contextos em que agentes políticos e influenciadores digitais detratam obras que sequer assistiram, faz-se necessária a reafirmação da importância da crítica de arte, na medida em que ela se torna fundamental ao operar em um regime oposto ao julgamento baseado em caricaturas e pânicos morais. A crítica devolve a obra ao campo da experiência, da interpretação e da reflexão, insistindo que nenhuma criação pode ser reduzida a slogans ideológicos sem antes ser vista, escutada ou compreendida. Mais do que comentar arte, a crítica defende a própria possibilidade de pensamento complexo, preservando espaços de ambiguidade, dissenso e imaginação que discursos autoritários frequentemente tentam eliminar. Nesse sentido, acredito ser urgente e necessário re-vincular a crítica de arte aos jornais, às revistas e à imprensa de forma geral, ampliando o debate.

Quando recortada e circulada fora do acontecimento, quem perde é a própria arte, que, ao invés de ser apreciada pelo que é, isto é, como acontecimento e relação entre artista e público, passa a servir de modelo para aquilo que não se quer, um espelho distorcido no qual se projeta medo, rejeição e julgamento antes mesmo da experiência.


Texto publicado em 14 de maio de 2026

Escrito por Ronildo Nóbrega.

 
 
 

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