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do exercício pedagógico ao acontecimento artístico: porque um projeto de dança de campina grande é a grande aposta para o ano de 2026

  • Foto do escritor: Xérem Indisciplinar
    Xérem Indisciplinar
  • 28 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

ideias


Se você não mora em Campina Grande nem mantém relação com o circuito das artes cênicas da cidade, provavelmente não imagina que existe ali um projeto, algo entre uma escola e um ponto de encontro e produção em dança, que vem repercutindo com força na cena local. Criado por Harrison Alves, professor, coreógrafo e diretor de dança, o Projeto Cena tem mobilizado, há três anos, a atenção do público da Rainha da Borborema em torno de criações que, em contraste com a rotina da cena local, marcada por plateias esvaziadas, lotam sessões e desenham longas filas anualmente diante de um teatro histórico, há tempos desacostumado a receber artistas, grandes públicos e trabalhos de relevância estética.

Todos os anos, geralmente nas primeiras semanas de dezembro, o Teatro Municipal Severino Cabral, símbolo da arquitetura moderna paraibana, é palco de filas, de uma plateia que se assemelha a torcida de um time de futebol, de comentários e expectativa, muita expectativa. Nesse período que antecedeu o Natal, quando ninguém esperava mais nada da classe artística, esgotada, é que houve a estreia de Balela, terceira criação encabeçada por Harrison Alves à frente do Projeto Cena na cidade de Campina Grande, Paraíba, uma ação que tem repercutido sem aparato e sem chancela institucional, que mostra como uma ação pedagógica pode produzir arte relevante e não apenas treinamento ou protocolo.

Não se trata de uma escola tradicional, com promessa de profissionalização, currículo e afins, mas de um conglomerado liderado por Harrison, um dispositivo de encontro em torno da dança e do gênero ao qual ele tem se debruçado nos últimos anos; o jazz-funk. Esse desprendimento do que se entende por escola, essa liberdade de experimentar configurações diversas, está por trás da aparição de criações que se recusam a ser meramente lidas como preparatórias. Diferente disso, há algo que nos surpreende nas criações: a identificação de que, para além de mostrar que os estudantes aprenderam alguma coisa, há um claro acontecimento artístico, coletivo e reconhecível. Balela - assim como as criações anteriores do Cena - põe para o público um resultado que pode ser apreciado como arte, não como mero resultado de treinamento.

Há uma quebra, portanto, daquela ideia de que uma obra de arte nasce apenas em contextos profissionalizados, financiados ou legitimados. Operando em uma sala cedida do Teatro Municipal, o Projeto Cena dribla um contexto precário e se afirma como um acontecimento específico, discreto em escala, mas amplo em repercussão. Desde o início, em 2023, foram desenvolvidos três espetáculos, Egrégora, Asfalto e Balela, a mais recente empreitada do curso, estreada no dia 13 de dezembro, cuja consistência formal e densidade cênica poderiam facilmente fazê-la passar por uma obra de companhia.

Na última empreitada do grupo, Harrison Alves alcança um feito inédito na dança da Paraíba ao colocar em cena cerca de quarenta pessoas em uma coreografia de dança contemporânea, um exercício que, repito, representa méritos pedagógicos, mas cujo foco recai sobretudo sobre sua dimensão artística, criativa e de tomada de risco. Essa presença massiva de corpos tão divergentes que dançam e produzem imagens não é apenas um dado quantitativo, mas um gesto político e afetivo que amplia a escala do trabalho e desafia as condições habituais de produção em um estado onde a cena é marcada pela precariedade. O coro de quarenta bailarinos, algo louvável no trabalho do grupo, produz efeitos consistentes de consciência coletiva. Em um território onde a produção em dança é escassa, colocar tanta gente em cena é mais do que um gesto estético; trata-se de um gesto de produção atravessado pela formação, que contraria o imaginário da falta, um ato que se afirma, assim, como insistência e imaginação produtiva.

Inspirado na Divina Comédia, de Dante Alighieri, Balela é uma obra dirigida e coreografada integralmente por Harrison Alves, intercalando cenas que abordam, ora de forma conceitual, ora de maneira quase literal, os sete pecados capitais e a ideia de inferno. Como as obras criadas nos anos anteriores, Balela parece ter sido transplantada de algum clipe de alguma diva pop americana, uma diva não facilmente localizável ou rastreável, diga-se de passagem, diretamente para o palco do Teatro Municipal, em Campina Grande. Exatamente como as anteriores, Balela transborda sensualidade, sensibilidade à moda e, sobretudo, evidencia a inclinação de seu criador pelo universo das imagens, traço fundamental ao mundo pop.

O estilo coreográfico de Alves se configura numa mistura, às vezes esquisita, às vezes gostosa demais, de elementos da dança contemporânea com o universo pop, tudo realizado a partir de uma lógica própria de funcionamento, que condensa os meios para condensar os sentidos. Como nas referências de seu criador, as coreografias de Egrégora, Asfalto e Balela carregam um desejo de comunicar em larga escala, sem recusar o acesso imediato do espectador àquilo que promovem. Em outras palavras, essas coreografias não recusam a ideia de acesso imediato do espectador às sensações e imagens que provocam, algo não tão recorrente na dança contemporânea. Há outro traço peculiar: a mistura de referências, um modo reorganizar materiais heterogêneos para criar sensações imediatas e reconhecíveis.

É assim que o diretor e coreógrafo mistura sem pedir licença. De Duda Beat à trilha sonora de A Substância, filme de Coralie Fargeat, a música que acompanha a coreografia de Asfalto é incorporada como se passasse por um grande processador que redistribui e desloca seus sentidos “originais”. Diferente de Asfalto, criação do ano passado, contudo, Balela é mais pessoal e intimista e opta por trilhas instrumentais, uma escolha estética que da unidade ao espetáculo. Na dança pop de Harrison Alves ele parece construir algo para além do palco, algo como uma coreografia feita para ser vista, recortada, lembrada, repetida. Ele trabalha a capacidade da dança de grudar no olhar exatamente como um refrão gruda no ouvido. Essa capacidade não é um efeito colateral, ao que parece, mas um princípio estruturante de suas obras.

No entanto, apesar de todas essas características, Balela — assim como as outras criações desenvolvidas pelo grupo — não se reduz ao entretenimento. Cada uma das criações condensam conflitos e tensões sociais. Em Asfalto, por exemplo, o tema era um planeta em extinção, informado por figuras folclóricas. Já na criação mais recente o foco recai sobre a perversão dos modos "pecadores" de existir.



Há, ainda, no Projeto Cena, uma capacidade de convocação que supera a falta de recursos e a dinâmica estrutural que opera contra a produção em dança. Todo mundo ali parece desejar exatamente aquele lugar: o da dança. Não estou, com isso, negando as dificuldades estruturais; muito pelo contrário, enfatizo que a escassez de produção também pode ser efeito de dispersão, de projetos que não se acumulam, de trajetórias solitárias que não se transformam em coletividade. Não é o caso de Projeto Cena que, mal completados três anos de existência, já se pode dizer com certa clareza que carrega sobre si, entre outros méritos, o de devolver à cena de Campina Grande e, talvez, da Paraíba a ideia de que o edifício teatral pode se instituir como uma comunidade temporária, um lugar onde as pessoas se reconhecem e torcem umas pelas outras.

Criado sem qualquer financiamento estatal e sustentado sobretudo pelo desejo de dançar, Balela é a criação que marca uma expectativa no calendário da Rainha da Borborema para 2026, ao mesmo tempo em que projeta Harrison Alves como um coreógrafo em ascensão, um artista que vem experimentando um estilo próprio em um contexto pouco favorável à criação, à experimentação e à pesquisa em dança contemporânea.

O Projeto Cena já repercute, e seus frutos talvez se tornem mais visíveis nos próximos anos, para além das obras que coloca em circulação. A própria trajetória de Harrison Alves é, ela mesma, resultado de duas experiências que, embora potentes, se encerraram sem reconhecimento público na cidade de Campina Grande. Formado pelo extinto curso de extensão em dança da Universidade Estadual da Paraíba, Alves atuou também como integrante da companhia Balé Cidade de Campina Grande, responsável por alguns espetáculos em uma cena que então respirava com dificuldade. O fato de não ter havido indignação quando o curso da UEPB e o Balé Cidade de Campina Grande chegaram ao fim não indica irrelevância artística desses projetos, mas revela uma falha social de reconhecimento. Ainda assim, não há perda completa, pois um repertório permanece inscrito nos corpos e, mais tarde, quando surgem condições mínimas de aglutinação, devolve à cena aquilo que parecia ter desaparecido.

O projeto desenvolveu até agora obras que não permaneceram por muito tempo em circulação, talvez pelas dificuldades evidentes de produção. Foram poucas apresentações, o que, no entanto, não as isenta de impacto social ou estético. O alcance das três criações do Cena não nasce do número de vezes em que foram apresentadas, mas da capacidade de convocar atenção, provocar reflexão, criar memória coletiva e inspirar ações e expectativas futuras. Há burburinho, há circulação de imagens, há experiências compartilhadas e, sem sombra de dúvida, há influência sobre a cena de dança de Campina Grande. marcada por interrupções, frustrações e silêncios acumulados.

Na poesia dançada de Egrégora, Asfalto e Balela, uma poesia que insiste em reaparecer em uma cidade e em um estado que têm se esforçado para ignorar, quando não apagar, sua potência artística em dança, o Cena surge como uma espécie de vagalume que acende no escuro de uma Campina Grande anestesiada nas últimas décadas por um conservadorismo que estanca a criatividade de seus artistas, mas que sempre foi, ainda assim, um terreno fértil para a cultura e, em especial, para a dança contemporânea.

Faz exatos três anos que os resultados dos cursos de Harrison Alves vêm causando burburinho na cidade, um “resultado” que se afirma para além do campo pedagógico. Ele retoma, talvez sem saber, um tempo em que os chamados resultados de curso carregavam densidade artística e não se limitavam a cumprir uma função protocolar. Hoje, muitos resultados de curso no campo das artes cênicas, inclusive os de graduação, pasmem, parecem existir apenas para atestar que algo aconteceu, sem afirmar risco nem apostar na imaginação. O Projeto Cena, ao contrário de inúmeros resultados apresentados ao fim deste ano, assume o risco de ser visto como obra original. Isso recoloca a régua da expectativa, tanto para quem cria quanto para quem assiste.

O Cena, a meu ver, rompe com o rebaixamento que tem sido aceito como “resultado de curso” e insiste na ideia de que o pedagógico pode incidir em um acontecimento artístico real, coletivo, capaz de convocar o público, sustentar a cena e, sobretudo, produzir memória. Faz exatos três anos que os resultados dos cursos acontecem em apresentações pontuais, o que priva o público de outros momentos de fruição e o próprio espetáculo da possibilidade de se aperfeiçoar; ainda assim, essa pontualidade não impede que o Projeto Cena seja colocado, sem sombra de dúvida, ao lado de outros acontecimentos relevantes em uma cidade que ainda não aprendeu a sustentar memória, continuidade e reconhecimento para a dança.

Essa iniciativa, já amadurecida em seus primeiros anos de existência, aparece hoje ao lado da Mah Cia. de Dança, companhia que alcançou reconhecimento internacional nos anos 90, do Balé Cidade de Campina Grande e do curso e da companhia de dança da Universidade Estadual da Paraíba, não tanto por uma relevância estética isolada, mas como experiência que se acumula nos corpos, pela sua capacidade de aglutinar pessoas e criar processos que perduram nos corpos dos artistas e do público, mesmo sem qualquer suporte do Estado.


Texto publicado em 20 de dezembro de 2025

Escrito por Ronildo Nóbrega.




 
 
 

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