aterrar nuvens; crítica de 'diáfanos', da sociedade t.
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crítica | performance

Homens-cabeça-de-nuvem ocupam a Praça da Bandeira, ponto central da cidade de Campina Grande, no evento mais importante da arte na Paraíba, o Festival de Inverno de Campina Grande, que celebra, este ano, a sua quinquagésima primeira edição. Os performers começam de mãos dadas, imóveis, e instauram uma presença ao mesmo tempo delicada e esquisita, até mesmo para o festival, acostumado com propostas mais tradicionais. Do público-passante, é possível ouvir “é um algodão-doce!”, até o silêncio de um corpo comerciante que, depois de oferecer água aos presentes, contempla a estranheza lúdica da performance de Pablo Vieira e Moisés Ferreira, dupla de artistas do coletivo transdisciplinar de Natal, Sociedade T.
Diáfanos chega a Campina Grande como uma extensão de um trabalho realizado anteriormente pelo grupo no campo do vídeo, colocando no espaço urbano uma performance que brinca com a temporalidade esgarçada das nuvens, que leva o público-transeunte das ruas a contemplar essas esculturas vivas que instituem, em meio ao caos e à pressa urbanos, um movimento radicalmente oposto: lento, esgarçado e, principalmente, dependente (do espaço, das relações com o outro e afins).
Os gestos dos performers são, em sua maioria, marcados por uma calmaria que se confunde com uma forma de resistência à lógica contemporânea da aceleração, da produtividade e do desempenho. É assim que, seguindo uma marca das derivas na performance, uma caminha/instauração estranha e lúdica ao mesmo tempo, as esculturas vivas propõem-se a demorar diante das pessoas, como quem aterrasse nuvens, como quem aterrasse no chão aquilo que parece pertencer ao mundo dos céus e, assim, pusesse o habitante da cidade a enxergar-se, mesmo que muito indiretamente, naqueles gestos cheios de tempo.
Diáfanos é, num certo sentido, a maturação de uma pesquisa que tem sido desenvolvida pela Sociedade T no que tange a uma poética da rua e que também consegue, mesmo diante de um público conservador que, sem vê-la, a tenha atacado e censurado pelas redes sociais, interagir, de fato, com a cidade, algo que o Festival de Inverno de Campina Grande tanto traz em seu discurso, mas que poucas vezes coloca em prática de maneira efetiva: a interação com a cidade. E, sobre isso, é justamente aí que reside uma das forças da peça: ela diz que não precisa colocar um palco ou um espetáculo gigantesco na rua para que haja interação com a cidade, mas que só uma escolha curatorial bem feita é capaz de pôr em movimento a cidade, seus habitantes e até suas concepções conservadoras de teatro, dança e/ou performance.
Impactante em toda a sua simplicidade, Diáfanos dá corpo ao que é fugidio, ao que, em sua fluidez, escapa e se transforma, sendo, ainda, uma das escolhas mais políticas do festival deste ano, não porque tematize a política (ou questões que estariam associadas, de início, a ela), mas porque institui outros modos de se mover na cidade.
Texto publicado em 22 de agosto o de 2026 por
Ronildo Nóbrega, professor, pesquisador e crítico de arte.




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