de passagem

crítica | cinema


Rebento, longa do paraibano André Morais, é um relato que compõe a loucura como um ato de rebeldia


Rebento, de André Morais

Rebento narra os encontros de uma andarilha que, após matar afogada a própria cria, caminhará um dia inteiro abraçada a uma melancia. Interpretada por Ingrid Trigueiro, a protagonista usufrui de nomes, balbucia histórias e anda sem destino ao ritmo de uma melancolia profunda que lhe faz flertar com a loucura. Rosa, que é Maria e que é, também, Ana, é uma figura enigmática que, apesar dos passos lentos e da voz arrastada, encontra-se em processo acelerado de deslocamento. O parto que lhe pôs a vagar, a revisitar, de modo pouco linear, o seu lugar no mundo, é o elemento que dispara um questionamento da própria existência e, mais do que isso, dos sentidos por trás do nascimento e da morte; não é à toa que a história se passe em um lugar que remete a origem da caminhante, um território que revela uma paisagem apenas aparentemente morta, um ambiente onde se encontram a sua mãe e o seu pai, ambos enfrentando circunstâncias e passando por momentos diferentes da vida.

André Morais, diretor paraibano autor do premiado curta-metragem Alma, é bastante perspicaz na costura dos signos; o parto e o infanticídio que o sucede, a doença de Alzheimer, o cemitério, a loucura e até mesmo a melancia. Todos esses elementos se entrelaçam na construção dos sentidos do longa e tudo se costura como um road movie expandido, isto é, um filme de estrada sendo que, em Rebento, não há uma pista claramente delineada, um ponto de partida e um lugar de chegada definitivos. Não há também os elementos mais evidentes do gênero, isto é, os acampamentos, automóveis ou postos de gasolina. Mas há, em Rebento, uma personagem em plena movimentação nômade, uma caminhante que se transforma ao caminhar, ao deparar-se com pessoas e viver experiências novas. Rosa, que é Maria, que é Ana e que é, ainda, tantas outras, cruza a paisagem branca do sertão buscando o autoconhecimento. O que dispara a busca dessa personagem múltipla é, certamente, a necessidade de reorganização social e adaptação imposta pelo parto.

Na criação de Morais, a andarilha é incapaz de absorver pacificamente o novo papel de de mãe. Já no momento inicial da obra é transbordante a apatia da personagem principal em relação a sua cria. Mesmo deitada sobre seu corpo, a criança parece não afetar e disparar em sua progenitora a mínima necessidade de cuidado. Este é, certamente, um dos pontos altos da fotografia de João Carlos Beltrão na medida em que ela é precisa na transposição dos sentimentos da puérpera. O abatimento e a indiferença perante o outro resultarão no assassinato da criança. Sendo assim, é a partir dessas dinâmicas que o longa-metragem tematiza, com complexidade poética, as agruras do pós-parto, evidenciando as transformações atravessadas pela parturiente e o seu deslocamento para a melancolia e a loucura. Não me refiro aqui a uma loucura captada, representada e disseminada pelo poder. Em Rebento, o que existe é uma construção desestereotipada da loucura ou, melhor dizendo, a percebemos como um movimento de rebeldia dentro da totalidade ordenada.

Todo louco abriga um conflito interno. No caso da mãe do rebento, a loucura é a força centrípeta que desordena as regras do social. Nossa andarilha nega a acumulação, a continuação e o progresso; ela mata o próprio filho para posteriormente associá-lo a uma melancia para, então, escutar o seu coração bater debaixo da terra... É impressionante como o cinema é, aqui, capaz de dizer algo sobre as possíveis associações entre parto, melancolia e loucura. Por outro lado, impressiona também como a direção esbarra nos limites de uma linguagem cinematográfica experimental que não auxilia nos propósitos da narrativa; a lógica da economia de planos imprime no longa uma temporalidade estendida, esgarçada, que se assemelha àquela da maternidade em que modificações no corpo da mãe são produzidas ao longo de meses até que, enfim, a criança desperte de suas entranhas para o mundo.

Entretanto, a construção desta temporalidade se perde em alguns tantos momentos, transformando cenas potentes em enfadonhas aglomerações imagéticas. Este é, certamente, o caso da interminável cena do almoço em que a andarilha descobre uma casa de mulheres que fazem do almoço um passeio de talheres pelo prato. Isso ocorre enquanto a protagonista esbarra com uma série de outras; a mãe e sua cria, a bisavó, interpretada por Zezita Matos e que faz, aqui, uma segunda aparição no filme, a possível lésbica etc. Essas raras exceções são incapazes de ofuscar o brilho de Rebento, principalmente se levarmos em consideração o contexto precário de sua produção e distribuição, afinal, apesar da potência de seus realizadores, o cenário cinematográfico da Paraíba é muito pouco favorável a produção de criações deste tipo (sobre isso, basta lembrarmos que Morais levou cerca de dez anos da idealização até a realização do longa).

Fruto do edital Walfredo Rodriguez, lançado pela Prefeitura Municipal de João Pessoa e estreado em 2018 na Mostra de Cinema de Tiradentes, na cidade de Tiradentes, Minas Gerais, Rebento é prova da potência dos criadores de cinema paraibanos. O longa percorreu diversos festivais, alguns deles internacionais, angariou alguns prêmios, passou para as plataformas de streaming e, no último mês, ocupou algumas sessões do Cine Bangüê, cinema do Espaço Cultural José Lins do Rego, orgulhando e, certamente, entrando para a história do cinema paraibano como a narrativa de uma personagem fragmentada, movimentando-se pelo sertão e em torno de suas próprias questões a fim de descobrir-se. Para além de tudo isso o longa-metragem de Morais é um convite para o espectador pensar o parto, a melancolia e, principalmente, a loucura como um ato de rebeldia dentro de uma realidade ordenada.


texto publicado em

29/05/2022


escrito por ronildo nóbrega,

professor, crítico de arte e artista multimídia