quando corpo é onda

Maré, paraespetáculo do Coletivo Cida, é uma dança que trata sobre os modos como o corpo oscila, perturba e impacta no tempo e no espaço como onda


ronildo nóbrega

Fotografia: foto de divulgação

Se existe um consenso inabalável entre aqueles que estudam e trabalham com as artes cênico-performativas – e que, até pouco tempo atrás era bradado como algo de sua especificidade – é a ideia da irrepetibilidade do acontecimento cênico. Mesmo marcado, milimetricamente coreografado, o movimento sempre se instaura no tempo com um quê de imprevisto, de novidade. Um detalhe contextual pode alterar substancialmente um gesto previamente elaborado e assim sucessivamente. Se por um lado esse pensamento não é nenhuma novidade para quem participou de uma aula de dança ou se arriscou em alguma posição na realização da cena, por outro, é preciso reconhecer que algumas criações se alimentam e se deliciam dessa instabilidade do gesto. É o caso de Maré, protoespetáculo do Coletivo Cida que investiga, de modo paradoxal, os limites da impermanência e da aderência como motes de elaboração poética em dança.


Maré é uma daquelas criações que parecem resistir com ferocidade à lógica da repetição e da montagem. Cada apresentação é um acontecimento radicalmente único. Como a água que transaciona entre diferentes estados, a obra do Coletivo Cida engata inúmeras intensidades e formas e, nesse sentido, é o espelho da condição precária de produção em dança no Nordeste. No paraespetáculo da companhia natalense (o para, prefixo grego, é utilizado aqui para enfatizar o impulso de transmutação da obra), as peças são quase que completamente reordenadas. Como em uma dança das cadeiras poética, o espectador poderá assistir a nuances diferentes dependendo de algumas circunstâncias momentâneas de aderência, inclusive do elenco.


Logo, para além daquela tendência de transformação inerente a toda e qualquer apresentação de teatro ou de dança, há aqui o desejo – consciente ou imposto, nunca se sabe – de habitar a impermanência. O percurso da obra até aqui é prova disso. São inúmeras versões, cada uma diferente da outra, em que se revezam não só os espaços de apresentação, mas também os bailarinos e a estrutura dramatúrgico-coreográfica, mergulhada ela mesma numa lógica aberta, pouco comprometida com a estabilidade de uma forma fixa originária.


Nesse sentido, a apresentação atrelada ao Itaú Cultural se concretiza na tela como uma marca, um registro de uma dança que não cessa de se transformar e adquirir diferentes camadas e nuances. Na recente edição audiovisual que chegou ao público brasileiro no mês passado, o balanço das águas de Maré reaparece carregado de potencialidade imagética, um outro sintoma de como a companhia sabe se apropriar das circunstâncias (ao invés de produzir uma mera captura de um evento cênico o grupo se apropria da linguagem cinematográfica e amplia a potência de sua coreografia). Na peça, estruturada a partir de recursos de acessibilidade, os bailarinos dançam, em grande parte da obra, diante da beleza desconcertante da praia e são capturados a partir de uma câmera que se coloca dentro do acontecimento cênico, produzindo-o.


Dramaturgicamente, o artefato audiovisual apresentado pelo Itaú Cultural é, como todas as edições apresentadas desde que a obra começou a circular nas terras potiguares, em 2017, uma espécie de maregrama (gráfico / escrita que detecta e calcula o nível e a força das águas) das relações / encontros. Na linguagem da oceanografia, o marégrafo é o instrumento responsável por registrar graficamente o fluxo e o refluxo das marés em um determinado ponto da costa. O que esse aparelho bastante útil aos oceanógrafos realiza é um cálculo do comportamento das águas oceânicas. Metaforicamente, é esta a mesma operação coreográfica que ocorre em Maré; cada apresentação é uma escrita de aderências (espaço, corpos etc.). Logo, a peça fílmica é a marca de um encontro que sempre aconteceu, pelo menos até aqui, de modo diferente.


Para além de uma simples metáfora a ser ilustrada – sobre este aspecto, aliás, é preciso se dizer que são poucos os momentos em que a dramaturgia se escora numa qualidade ilustrativa de representação – a relação aparece, sobretudo, como qualidade de presença / pertença. Maré é, em outras palavras, um registro de como o corpo se insere e se relaciona com o outro e com o ambiente como onda. Trata-se de uma composição sobre como ele (o corpo) oscila, perturba e se propaga no tempo e no espaço. Como a água do mar, os corpos espasmam calma e pacificamente para logo depois se despirem dessas qualidades, impactando com brutalidade o entorno. Muito ou pouco enérgico, ermo ou caótico, porém nunca parado, estático... Maré é uma obra sobre os movimentos oscilatórios do corpo, sobre como ele afeta e é afetado por circunstâncias diversas e sobre como ele elabora uma rede consequências (é o caso, por exemplo, da cena em que se torna evidente a questão da violência ao feminino).

No universo marítimo as ondas possuem uma existência peculiar; elas transportam sedimentos, alteram a morfologia das praias, transformam estruturas e afetam a navegação. Na composição do Cida, cada corpo (orgânico ou inorgânico como, por exemplo, o espaço de apresentação) é uma onda que carrega sua condição de existência e transforma / transmuta a obra, alterando, de modo quase imediato, a estrutura dramatúrgica da criação. Corpos com ou sem deficiência se movem e se expressam a partir de suas dinâmicas motoras particulares.

O curioso é que, apesar de toda essa transmutação, isto é, diante desta e das diferentes marés que o Coletivo Cida realizou até então, a obra continua a pôr em movimento a diversidade e a natureza das relações humanas enquanto a coreografia se coloca como o registro mesmo das flutuações e intensidades que o corpo adquire ao se encontrar e tombar com o outro. Mesmo quando dança sozinho na versão solo, René Loui, que assina a coreografia e direção da edição mais recente com Rozeane Oliveira, parece se mover (se debater e se afogar) em relação a um corpo-ausente, presença-ausência sufocante.

Por último, Maré, como nos aparece agora, poderia ser facilmente confundido como um espetáculo da companhia Giradança. Sobre isso, é preciso reforçar que a semelhança está para além do compartilhamento de bailarinos (todos que figuram na obra estão ou estiveram outrora associados à Gira). Nesse sentido, são incontáveis as correspondências estéticas e políticas que assemelham o trabalho do Coletivo Cida ao da Giradança. O primeiro é, na realidade, fruto de uma deserção, de uma fuga (dessas em que o fugitivo carrega consigo muito do lugar que deixa). Contudo, se o Coletivo Cida é uma célula, organismo resultante de uma divisão, ele está longe de ser cópia, algo como que o produto de uma mitose poética desprovida de originalidade.


Pelo contrário, há algo de novo, uma força que diferencia a poética do Cida do trabalho do Gira e este algo é um instinto furioso de imperdurança, um impulso por habitar o infinito. Talvez esse pensamento se produza associado a uma boa dose de “romantização”, afinal, a impermanência de uma forma espetacular pode não ser fruto de uma escolha e sim das precárias condições de manutenção de trabalho. Entretanto, se a poética de um grupo é determinada pelas condições sociais de sua produção – o pagamento de salários, por exemplo, ou mesmo o uso de um espaço digno de criação e experimentação – o Coletivo Cida parece se apropriar da precariedade, configurando-a poeticamente numa existência que opera como a água, completamente instável, adquirindo formas e forças distintas, absolvendo e se apropriando de corpos e entornos.