por que você dança?

anderson marcos da silva



Talvez você dance... mas por quê?


Talvez você dance porque, quando era ainda criança, corria por campos e brincava em quintais. Talvez porque no seu quintal, quando chovia, surgiam grandes poças de água e você se divertia pulando de uma poça à outra, espalhando a água em pequenas explosões. Talvez porque a dança seja uma possibilidade de desencadear pequenas explosões que reconfiguram os nossos quintais. Talvez porque a dança se derrame pelo chão, criando poças que se refazem em passos e pulos e quedas. Talvez porque a dança siga escorrendo pela pele e pelos músculos e pelos ossos e pelos neurônios dos corpos que nela se molham.


Talvez você dance porque insiste em fazer ressoar o entendimento de que podemos e devemos agir na transformação de nosso presente. Talvez porque saiba, imagine ou desconfie que a dança acontece sempre no presente. Talvez porque saiba, imagine ou desconfie que em nosso presente ainda insistem e persistem danças que não cessam de questionar modelos e padrões excludentes e também aquelas que os legitimam. Talvez porque, dançando, você possa corporalizar as demandas estéticas, éticas, políticas, econômicas etc. que permeiam nossos cotidianos, embora saiba, imagine ou desconfie que a dança não poderia oferecer quaisquer respostas definitivas. Talvez porque, dançando, você possa construir possibilidades de continuidade de suas dúvidas, de seus saberes, de suas desconfianças.


Talvez você dance porque, dançando, experimenta a permeabilidade que se constrói entre os corpos e o mundo. Talvez porque na breve materialidade de cada movimento de dança possam se construir, em contingências aleatórias ou em surpresas, em descobertas ou em invenções, outras maneiras de se mover e de se relacionar com outras pessoas e com o ambiente. Talvez porque descobriu ou inventou outras maneiras de perceber o corpo e o ambiente, de entendê-los como processos que, em permeabilidades mútuas, são geradores de dança.


Talvez você dance porque gosta de se mover. Talvez porque você goste da sensação de transpirar enquanto aciona combinações improváveis de músculos e ossos e neurônios e reconfigura suas relações com o chão e com a gravidade, ora resistindo, ora cedendo a ela. Talvez porque, dançando, as aulas de física que descrevem a transformação de energia em trabalho ou que tratem da inércia e das relações entre aceleração, desaceleração e atrito ganhem sentido. Talvez porque, dançando, você pode descobrir ou inventar outros sentidos para o movimento e também para a (aparente) imobilidade, demorando-se em paragens que seguem alargando as possibilidades de ser da dança.


Talvez você dance porque, dançando, pode fazer ressoar as questões de gênero, de raça, de etnia, de orientação sexual etc. que ainda precisam ser debatidas em uma sociedade repleta de desigualdades e preconceitos. Talvez você dance porque essa seja mais uma possibilidade de construir e disseminar discursos não-hegemônicos acerca do corpo e de todas as suas questões. Talvez porque a materialidade da dança inscreva essas questões de maneira incontestável nos corpos e no mundo. Talvez você dance para inscrever-se no mundo e, assim, ser copartícipe em suas incessantes transformações.


Talvez você dance por teimosia. Talvez porque, dançando, você consiga experimentar o emaranhado de suas singularidades corporais, culturais, estéticas, políticas etc. Talvez porque, dançando, você possa assumir os riscos de uma existência em crise ou possa se conformar em seguir transformando-se incessantemente, ainda que essa não seja exatamente sua vontade. Talvez você dance por teimar em analisar e reorganizar as possibilidades (infinitas?) de emaranhar corpos, de ocupar espaços, de mover e de parar, de experimentar o tempo.


Talvez você dance porque, dançando, você esteja disponível ao diálogo e ao compartilhamento, embora não seja possível desconsiderar as inúmeras adversidades e hierarquias que ainda se impõem nas relações entre corpos. Talvez porque, enquanto dança, você atualiza seus repertórios de movimentos e de paragens e de sentidos e pode descobrir ou inventar outras maneiras de dançar, mesmo que os códigos e os modelos ainda persistam. Talvez você dance para descobrir ou inventar sentidos ou razões ou porquês para seguir dançando.


Talvez você dance para descobrir ou inventar uma maneira de continuar existindo.


Talvez você dance porque há ainda a vida.


Talvez você dance porque há ainda o tempo.


Talvez você dance e não exista um porquê ou talvez ele não tenha tanta relevância.


Texto publicado originalmente no livro Ágora, modos de ser em dança (vol. 1), organizado por Gilsamara Moura & Douglas de Camargo Emílio e publicado em 2018 pela Editora Jogo de Palavras.