embriaguez insética

crítica | teatro


Formigas bebem absinto no armazém do caos, mais recente espetáculo da Cia. Oxente propõe reflexão sobre o fazer teatral


Fotografia: Bruno Vinelli

Poucos grupos de teatro resistiram por tanto tempo na Paraíba como a Cia. Oxente. Nascida há quase quatro décadas em Alagoa Grande, interior do estado paraibano, a companhia transferiu a base de sua produção artística para a cidade de João Pessoa, desenvolvendo, ali mesmo na capital do estado, uma cena de cunho regional capaz de repercutir, até mesmo no presente, um dado momento da produção e do pensamento teatral paraibano. Os maiores trunfos da companhia, os espetáculos Anáguas, de 2013, e Jogo das Máscaras, de 1991-1994, sintetizam o percurso criativo do coletivo; por um lado, tem-se uma poética regional, bastante eficaz na representação/construção de uma identidade nordestina, por outro lado, tem-se uma produção marcada pela forte associação entre encenação e texto dramático. Os esquemas quase se repetem na mais recente montagem do grupo, o desarrumado Formigas bebem absinto no armazém do caos. O espetáculo, orquestrado no auge da pandemia do novo coronavírus, nasce de texto inédito do professor, encenador e dramaturgo paraibano Everaldo Vasconcelos e aborda questões em torno do fazer teatral.

Com direção de José Manoel Sobrinho, a composição narra – de modo pouco linear – as questões, os problemas e o apetite de um típico grupo de teatro amador; o ator que chega atrasado, a atriz que não consegue encontrar a parafernália cênica e se depara com a precariedade de seu sistema de produção, a outra que sonha em ser reconhecida, um outro que, ainda, não encontra sentido e despreza a teoria do teatro etc. Há, em meio a isso tudo, um retorno constante aos clássicos e às fórmulas instituídas do fazer teatral. Nesse conglomerado quase sufocante de signos, o absinto é o elemento dramatúrgico que costura o caos que representa ser um grupo de teatro. O público encontra esses personagens-bêbados disposto em mesas e cadeiras ao redor da cena. Tendo algumas doses de álcool ao alcance, ele é constantemente convidado a se embriagar com tantas-tamanhas questões.

Diante dos caminhos trilhados pela Cia. Oxente até aqui é impossível não imaginar que a potência metalinguística do espetáculo poderia culminar em um regionalismo atual, aberto a pensar as condições de produção teatral na Paraíba, afinal, o espetáculo passa longe dos estereótipos e das marcas mais comuns de uma típica cena regionalista, trazendo algo muito particular do fazer teatral da região e as condições ultraprecárias de sua produção. Entretanto, a encenação transpõe um texto excessivamente rebuscado e, com raras exceções como, por exemplo, a do ator José Maciel da Silva, capaz de enlaçar o público sem muito esforço, enfatiza uma interpretação declamatória (apesar de claramente querer criticá-la). É evidente também uma estranha espécie de perseguição aos códigos do chamado “teatro contemporâneo” (existem, em cena, um cronômetro e um microfone que nada contribuem com a dramaturgia e a construção dos sentidos do espetáculo).

Construído no ápice da pandemia de coronavírus em um ato de resistência sem precedentes, a materialidade da cena reflete, ainda, o distanciamento das redes – cada ator e cada atriz opera a partir de uma lógica de interpretação própria enquanto partilham uma distância razoável uns dos outros ao longo das cenas. O mesmo se dá em relação ao público que, apesar de partilhar o espaço de produção da cena, o palco, é espantado pela quarta parede constantemente reforçada no decorrer no espetáculo. O breu que anuncia o término de Formigas bebem absinto no armazém do caos carrega a sensação de que o espetáculo não constrói de maneira clara a relação existente entre atores, insetos e absinto. Esse mesmo escuro carrega também outra percepção; a de que a mais recente obra da Cia. Oxente é um retrato sincero da disposição e das questões de um grupo quase quadragenário, ávido por se reinventar e encontrar o seu e outros públicos. Evoé, Oxente!


texto publicado em

16/05/2022


escrito por ronildo nóbrega,

professor, crítico de arte e artista multimídia