proximidade perigosa

lemuel guerra


Foto de divulgação

Em tempos do palavreado excessivo e turbilhão de visualidade em que estamos mergulhados o espetáculo nos soca no estômago com cerca de 15 minutos iniciais de palavra nenhuma, todavia de fluxos e contrafluxos intensos entregues generosamente e com rara verdade cênica e humana. Para a direção (de João Paulo Soares) e atuação radicalmente naturalistas, menos é mais. Não há razões para que fiquem ‘gorduras’, excessos, para que se ensaiem grandiloquências. É o pequeno, a intenção de microplanos que domina.


Quando a personagem começa a usar as palavras, a impressão forte é a de que elas seriam desnecessárias, que através delas se instaura um deficit irreparável no que se quer e pode alcançar dizer. Como se elas chegassem atrasadas, ressoando a indizibilidades que as constituem.


Trabalhando ‘com um texto’ e não ‘para um texto’, o fluxo da loucura das mulheres que ganham o corpo de Ana Marinho (uma mistura de Macabéia e Dona Doida) é perigosamente distribuído para espectadores que são vistos em meio ao mergulho no incômodo espaço da proximidade dos sentimentos, dores e prazeres comuns no que acostumamos a chamar, pelo descuido com que tratamos as epifanias do modo estranho de se ser tragicamente humano, de loucura.


Chega a ser pornográfica a exposição em camadas sutis de voz, de planos, de gestualidade que a personagem-solo de ‘Razão para ficar’ oferece de nossa solidão, de nosso ajoelhamento contínuo aos imperativos do trator do cotidiano insensibilizante, de um tempo em que é central a conquista de likes, a obrigatoriedade das selfies em que filtros especiais são experimentandos como modos de ‘corrigir’ os traços das nossas ‘imperfeições’ e distâncias do corpo ‘belo’ endeusado, do irremediável borbulhar dos fragmentos do passado em sua nostalgia insaciável de se presentificar. A frágil fronteira que nos coloca do lado dos ‘normais’, durante o tempo especial que a personagem ativa, aparece em uma porosidade constrangedora, emocionante, perigosamente arrebatadora, instaurando o modo dilemático que a arte possibilita.


Como diz Lacan, de modo tão duro quanto difícil de entender, que ‘a loucura não é para quem quer, mas para quem pode’, Ana oferece uma amostra perturbadora da liberdade experimentada pelos que não servem mais à ditadura do aparencialismo, dos que não temem o ridículo, a nudez da imagem crua de si mesmos e nos entrega o que sua máquina desejante (e a de João Paulo Soares) decidiu fazer circular do olhar apaixonado de Thalyta Lima, pesquisadora que se debruçou sobre as estórias de mulheres habitantes de uma ‘residência terapêutica’, uma modalidade de ressocialização das ‘loucas’ que estiveram durante a fase manicomial no Brasil, reclusas no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, em João Pessoa/PB.


O espetáculo tem uma trilha sonora eficiente gravada (e cantada pela atriz de modo irrepreensivelmente verdadeiro), que incide ativamente sobre a atuação de Ana, fazendo, junto com a iluminação imaginativa e dramática, o que se espera que esses elementos façam em um espetáculo de teatro: atuar como se fossem personagens, comentando, problematizando, ampliando o espaço para a protagonista.